Jardim Botânico será aberto nesta sexta-feira (12/04) em JF

Espaço da UFJF terá atrações, como trilha, roteiros de visitação, lagos com decks, galerias de arte, bromeliário e orquidário. 

 

Quase 12 anos após as primeiras manifestações de interesse em transformar o Sítio Malícia, parte integrante da Mata do Krambeck, em Jardim Botânico, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) inaugura o espaço nesta sexta-feira (12). A população poderá visitar o Jardim Botânico a partir das 13h. Durante a manhã, a instituição realiza uma solenidade de inauguração, restrita a convidados.

Dos 82,7 hectares de área preservada, equivalentes a 119 campos de futebol, o público terá acesso livre a cerca de dez hectares. O Jardim Botânico irá oferecer diversas atrações, como trilha, roteiros de visitação, lagos com decks, galerias de arte, bromeliário e orquidário. Além disso, os visitantes terão contato com cerca de 500 espécies vegetais, entre plantas nativas, populações raras ou em extinção, como o pau-brasil e o ipê roxo. Animais de espécies de diferentes regiões do país também estão entre os atrativos, já que a área é rota de aves migratórias transitórias.

O local tem capacidade de receber cem visitantes por vez, sem limite diário, além de turmas escolares com até 50 alunos e professores. O funcionamento será de terça a sexta-feira e aos domingos, das 8h às 17h, com acesso permitido até às 16h30. A entrada é gratuita. Por ser uma área natural, o Jardim Botânico apresenta riscos inerentes à este tipo de território, assim, a UFJF recomenda o uso de itens de proteção individual contra insetos e animais peçonhentos (ver arte).

Espaço de diálogo

Como um espaço de pesquisa, ensino e extensão da Universidade, o Jardim Botânico tem como finalidade estabelecer diálogos direto com a sociedade, de acordo com o diretor do Jardim, Gustavo Soldati. “Para Juiz de Fora, como um todo, é um espaço público para que todas as pessoas acessem a biodiversidade. Assim como saúde, educação e segurança são bens públicos que devem ser garantidos pelo Estado, o acesso à biodiversidade também”, afirma. “O mais importante para a sociedade é estabelecer trocas e conversas sobre a biodiversidade, então nós queremos que o Jardim Botânico seja um espaço de diálogo, de conhecimento e de saberes sobre essa biodiversidade.”

 

Além da experiência de contato direto com a Mata Atlântica, Soldati destaca quatro equipamentos de educação ambiental para o público: roteiros de visitação, Laboratório Casa Sustentável, Trilha da Juçara e a Casa Sede, antiga casa do Sítio Malícia (ver mapa).
O Jardim Botânico irá oferecer cinco roteiros de visitação para grupos escolares, com foco na sociobiodiversidade e na apresentação dos grupos vegetais presentes no espaço. São eles “Os grandes grupos vegetais”, “Diversidade vegetal e etnobotânica”, “Relações ecológicas”, “Socioambientalismo” e “Mitos, heroínas e heróis brasileiros”.

Já o Laboratório Casa Sustentável é um projeto desenvolvido pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF. De acordo com Soldati, a edificação trabalha com bioconstrução e técnicas ecológicas de conforto ambiental. O objetivo é promover a conscientização sobre os princípios de sustentabilidade. No espaço, os visitantes poderão vivenciar a experiência de uma moradia ecológica, compreendendo a forma em que diferentes usos de materiais e posicionamento de estruturas influenciam em questões como sensação de calor e luminosidade.

A Trilha da Juçara percorre parte do fragmento florestal, permitindo que o público caminhe pelo espaço. Já a Casa Sede irá disponibilizar três galerias de arte, sob a curadoria da Pró-reitoria de Cultura (Procult) da UFJF. A primeira exposição a ser inaugurada irá abordar o histórico do Jardim Botânico. Já a segunda traz a mostra “Aves da Mata do Krambeck no Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora”, de autoria de Raphael Dutra. Em 30 trabalhos em aquarela e guache sobre papel, o artista retratou pássaros e aves avistados no espaço. A terceira exposição, “Entre Enigmas e Percursos”, contará com intervenções fotográficas sobre as paisagens do Jardim, reunindo obras de 12 artistas convidados.

Outros atrativos

Além dos quatro equipamentos destacados pelo diretor do Jardim Botânico, o público ainda poderá visitar um bromeliário e orquidário, com exposição de espécies nativas. Há, ainda, a Casa de Educação Ambiental, para oferecer breves explicações aos alunos das escolas antes das visitas se iniciarem. No local, ainda serão desenvolvidas atividades de educação ambiental, como cursos e oficinas.
Em breve, uma lanchonete deve ser inaugurada na Casa Sede, assim, a recomendação ao público é levar lanches e bebidas, exceto alcoólicas. O Jardim possui uma área reservada para piqueniques. Alunos da UFJF estarão dispostos, em pontos específicos do espaço, para dar orientações e informações aos visitantes.

 

Jardim Botânico recebe escolas de Minas e do Rio

Na última terça-feira (9), a UFJF divulgou a lista de 46 escolas que tiveram o agendamento confirmado para visita ao Jardim Botânico. As 74 vagas para o primeiro semestre, entretanto, já foram preenchidas. A partir de junho, a UFJF irá disponibilizar novas vagas para o segundo semestre. Neste primeiro, além de Juiz de Fora, escolas de mais oito cidades de Minas Gerais e do Rio de Janeiro irão visitar o espaço. São elas: Andrelândia, Comendador Levy Gasparian (RJ), Lagoa Dourada, Matias Barbosa, Piau, São João Nepomuceno, Santos Dumont e Simão Pereira.

Segundo o diretor do Jardim Botânico, a procura para visitas foi alta, o que representa um anseio da sociedade, especialmente escolar, em conhecer o espaço. “Isso representa uma das conexões mais bonitas, entre a Universidade e as escolas. Nada melhor do que estabelecer diálogos com outras instituições de ensino, que trazem novos olhares e novos conhecimentos. Recebendo as escolas, vamos aprender muito com essas crianças, com esses professores, e, ao mesmo tempo, vamos ter a possibilidade de conversar sobre esse tema bastante importante, que é a conservação da biodiversidade.”

Os grupos escolares começam as visitas na manhã da próxima terça-feira (16), seguindo até o final de junho. O Jardim irá receber duas turmas por dia, com até 50 estudantes e professores em cada agendamento, de terça a sexta, das 8h às 11h, e das 13h às 16h.

Jardim irá agregar valor ao turismo local

O Jardim Botânico irá agregar valor ao segmento de turismo em Juiz de Fora, de acordo com o coordenador do Comitê de Turismo da Agência de Desenvolvimento de Juiz de Fora e Região, Carlos Eduardo Loures. Para Loures, a localização na Mata do Krambeck, uma das maiores áreas remanescentes de Mata Atlântica em perímetro urbano, é um grande diferencial. “O Jardim Botânico vai ser uma referência importante, efetivando a pesquisa e educação de uma maneira bastante ampla, e proporcionando à população um contato direto com a natureza e a biodiversidade.”

O fator da localização soma-se ao crescimento na busca por turismo ecológico, o que aumenta a expectativa pela abertura do espaço. “O Jardim Botânico não é simplesmente um local de passeio, ele tem que ser explorado em vários segmentos. A parte de educação, cultura, exposições e conscientização também, mostrando como é importante a preservação de espécies raras que lá existem”, pontua, “É uma conquista enorme. O Brasil tem poucas cidades com o privilégio de ter um jardim botânico, como o que será inaugurado no coração de Juiz de Fora.”

Projeto foi anunciado em 2007

A Tribuna fez um levantamento em seu arquivo histórico, em reportagens publicadas a partir de 2007, a fim de resgatar as etapas envolvendo a implantação do Jardim Botânico em Juiz de Fora. O primeiro anúncio do projeto ocorreu em 22 de agosto de 2007, pelo ex-reitor da UFJF, Henrique Duque. Em audiência pública na Câmara Municipal, Duque apresentou as intenções da instituição em transformar o Sítio Malícia em Jardim Botânico. Na época, os mais de 80 hectares do terreno eram particulares e estavam vinculados à construção de um condomínio residencial. Articulações para compra da área seguiram até agosto de 2009, quando a UFJF assinou protocolo de intenção de compra com um dos sócios do sítio e confirmou a construção do Jardim Botânico, com a primeira previsão de abertura para visitação pública para o primeiro semestre de 2010.

Entretanto, a burocracia nas negociações do setor público se mostrou como maior dificuldade para a concretização da criação do espaço. A compra do terreno só foi efetuada em fevereiro de 2010. No total, R$ 5,3 milhões em emendas foram destinados para a construção do Jardim Botânico.
Com a data de inauguração adiada algumas vezes, o Jardim Botânico chegou a contar com um período para visitação entre 6 e 30 de julho de 2010. Entretanto, as visitas foram apenas em caráter experimental, já que o espaço ainda precisava passar por intervenções em infraestrutura e segurança.

Na ocasião, a previsão era de que as obras durassem até sete meses, porém, elas dependiam de licença ambiental obrigatória. Só em dezembro de 2012 o ex-reitor da UFJF, Henrique Duque, assinou contrato com as empresas que iriam executar as intervenções. Foi nessa mesma ocasião que a instituição anunciou a construção de um teleférico e de um trenó da montanha.

Teleférico

Em março de 2013, a UFJF conseguiu a licença prévia para as obras do teleférico, mas ainda era necessário que a instituição cumprisse condicionantes para conseguir as outras duas licenças – de início e de operação. Entre fevereiro e março do ano seguinte, em articulação com a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a Universidade conseguiu a doação de terreno no Bairro Eldorado, para construção da Estação de Reenvio de Teleférico do Jardim Botânico. A previsão era de que as intervenções seriam finalizadas em 2015. Na época, a Tribuna noticiou que cerca de R$ 26 milhões deveriam ser gastos com as construções do teleférico e do trenó da montanha.

Entretanto, em 2015, as obras sofreram atrasos, com necessidade de realização de novas licitações para intervenções de infraestrutura, como esgoto e energia. Em novembro, com cerca de 60% dos trabalhos concluídos, a inauguração se arrastou por conta da situação financeira da UFJF. Como denunciado pela Tribuna em setembro de 2018, seis cabines, orçadas em R$ 11,378 milhões, estavam há quatro anos guardadas em dois contêineres na Suíça. A garantia para trazer os equipamentos ao Brasil expirou em 2016, e a UFJF teria que desembolsar mais de R$ 1,6 milhão, a fim de proceder a importação, valor que a instituição não possuía. As obras ainda não foram finalizadas, logo, a inauguração do Jardim Botânico, nesta sexta-feira, não irá incluir o teleférico e o trenó da montanha. Por meio de sua assessoria, a UFJF explicou que informações sobre os equipamentos devem ser repassadas em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (11), antes da cerimônia de inauguração do Jardim Botânico.

População anseia por Jardim Botânico

O terreno doado à UFJF para construção da Estação de Reenvio de Teleférico abrigava, antes, um mirante. A escritura de doação prevê que a instituição inicie as atividades em dez anos, prazo que expira em 2024. Do contrário, terá que devolver o espaço ao Município. Enquanto não há previsão da entrega dos equipamentos, a população no entorno cobra a finalização das obras. Segundo Luiz Cláudio Cardoso, presidente da Associação de Moradores do Bairro Jardim Eldorado, o espaço era utilizado por vários segmentos, como ponto de lazer para a comunidade, sendo considerado um local atrativo para a cidade. “Hoje, é um lugar que não podemos ir nem para vislumbrar a vista, já que o acesso está impedido. Nós queríamos que isso se resolvesse o mais rápido possível para devolver um bem público à população”, desabafa. “Toda a comunidade no entorno ficou privada de utilizar aquele ponto, onde criou-se uma história por todos os moradores.”

Mesmo com a frustração quanto ao imbróglio envolvendo um dos principais atrativos do Jardim Botânico, a perspectiva para inauguração do espaço é positiva. “Nós estamos criando uma expectativa muito grande junto aos bairros vizinhos e também em relação às escolas, porque abre-se um grande leque de oportunidades de conhecimento para as crianças”, aponta Cardoso.

Marco significativo

Responsável pelas primeiras articulações e etapas para implantação do Jardim Botânico, o ex-reitor da UFJF, Henrique Duque, acredita que a inauguração do espaço é um “marco significativo” tanto para a instituição, quanto para Juiz de Fora. “Representa, para a Universidade, um local de pesquisa, graduação e um local onde possa praticar a extensão, então o tripé da instituição está todo contemplado no Jardim Botânico. Para a cidade, além de ser um local de lazer, é uma oportunidade para a população conhecer a Mata Atlântica e também usufruir de todos os conhecimentos que lá existem, através da universidade.”

O ex-reitor destacou, ainda, a conduta de parlamentares no início do projeto, que auxiliaram em sua concretização, como no caso do deputado federal Júlio Delgado (PSB). Nas primeiras manifestações da UFJF em utilizar a área do Sítio Malícia para implantação do Jardim Botânico, Delgado atuou nas articulações para impedir a construção do condomínio residencial e ceder o espaço à Universidade. Dos R$ 5,3 milhões em emendas destinados ao projeto, R$ 3,5 milhões vieram do gabinete do deputado, sendo que o restante foi fruto de acordos propostos por Delgado entre outros parlamentares. O deputado reforça que a inauguração do Jardim Botânico nesta sexta-feira será a “concretização de um sonho”, especialmente em um contexto em que questões ambientais estão em pauta. “Houve, recentemente, rompimentos de barragens em Minas Gerais, e temos em Juiz de Fora um contraponto importante, que é a preservação de uma reserva enorme”, diz. “Fico satisfeito de ter participado no início desse projeto, quando conseguimos implantar a ideia de transformar em Jardim Botânico um local que estava destinado a ser um condomínio de luxo já que, certamente hoje, dez anos depois, boa parte dessas áreas que estão preservadas estariam já derrubadas.”

 

 

Reportagem e fotográfia: Tribuna de Minas